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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Mesmo a menor das pedras...




Um velho joalheiro trabalhava com bastante empenho em lapidar uma pequena pedra. Mesmo tendo adquirido grande conhecimento na arte de lapidar tais pedras preciosas, a avançada idade retirou-lhe parte de sua perícia e visão. Assim, suas mãos já não correspondiam tão bem aos seus anseios. Desse modo, o velho senhor realizava o trabalho com certa dificuldade, mas não se mostrava abalado com isso. Apenas realizava seu ofício com afinco e calma para lapidar aquela pequena pedra. 

Na outra mesa da oficina, o filho e também aprendiz nesta arte, observava o pai com certa frustração e impaciência. Não conseguindo mais conter a sua indignação, disse ao pai: 

- Por que o senhor perde tanto tempo e energia com essa minúscula pedra? Temos pedras maiores para lapidar, que o senhor poderia fazer com mais facilidade e rapidez e nos dariam muito mais lucro. Por que desperdiças seus esforços com uma pedra tão pequena?

O pai olhou o filho com benevolência e percebeu que para apaziguar o coração de seu afoito aprendiz o melhor seria uma explicação mais detalhada. Estas foram as suas palavras do ancião:

- Meu filho, é verdade que precisamos vender as jóias para colocar o alimento na mesa, mas esse não deve ser o objetivo principal do que fazemos. Nenhuma pedra é pequena demais para que possamos negligenciar o nosso trabalho, que é extrair de cada pedra o brilho que, de fato, ela possui quando exposta a luz. Todas as pedras tem as suas histórias: as pressões,  percalços e condições de suas formações, em geral, as embrutecem e as condicionam a uma imagem feia, rugosa e, por vezes, sem qualquer valor aparente. Cabe ao joalheiro reconhecer a essência de cada pedra e, com a retirada do excesso, alcançar o diamante que há nela. Ao se negar a isso, mesmo para a menor das pedras, o joalheiro nega a si mesmo. Você ainda é jovem para entender, mas da mesma forma que esta pequena pedra precisa do mim para escavar a sua essência, também eu preciso de cada uma das pedras em que trabalho, mesmo as menores, para encontrar a minha própria essência e refletir adequadamente a luz que provem de todos os lugares. 

Ao terminar o seu comentário, o velho homem sorriu ao filho, colocou o pequeno diamante, que agora brilhava de forma delicada e bela, sobre a mesa e, em silêncio, pegou a próxima pedra bruta para lapidar. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Era/Foi apenas um gato...





Era uma vez um gato em uma caixa. Não se pode dizer muito sobre como o gato existia ali; isolado do resto do Universo e tudo mais... Nem ele mesmo sabia se estava vivo e/ou morto e o que quer que significaria estar vivo ou morto para um gato que sempre existiu dentro de uma caixa.

Um dia, num instante, o seu mundo (como ele conhecia) colapsou: Naquele breve instante, o gato percebeu o repentino abrir da tampa da caixa. Tudo virou luz... E o fim desta história só é conhecido por aquele que se atreveu a abrir a caixa e olhar para dentro dela. Quanto ao gato, independente do seu estado atual, provavelmente está bem mais feliz que antes. Afinal, ninguém merece ser condenado a uma superposição (indefinição) de estados por todo o sempre.  ;-)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Uma mulher chamada Mecânica Quântica





Nem sempre os textos surgem como eram em nossas mentes. O simples passo de escrevê-lo já o faz ser diferente de como esperaríamos que fosse... As palavras sempre limitam o significado, mesmo assim insistimos em tentar por palavras expressar o que nem sabemos definir com os pensamentos. Esse texto surgiu de uma dessas tentativas... 



Então, alcançamos a maturidade. Surge a Mecânica Quântica, algo como uma estonteante garota na balada. Ofuscada pelas luzes e atmosfera daquele ambiente, sua simples imagem nos choca, hipnotiza e fascina.  Suas roupas, seu jeito de agir mostram algo desconhecido, ousado e até absurdo. Ela representa tudo que vai contra a nossa intuição, mesmo assim não podemos tirar os olhos dela.  Definitivamente, sentimos que ela vem para modificar completamente tudo o que concebemos como natural. Ela é autentica e pouco se importa com o que achamos que ela deveria ser. Neste primeiro momento surge deslumbramento e angustia, sabemos que a vida não pode mais ser como antes e não temos ideia do há por vir. Ela é algo completamente novo em nossa vida e demanda um olhar igualmente original da realidade para fazer sentido.

Só nos resta dar um salto para além: aceitamos que ela é algo diferente, especial e que não podemos compreender ou descrever. Mesmo assim, de algum modo, sabemos que ela é exatamente aquilo que pedimos, sem saber que era o que precisávamos.  Ao aceitá-la nos vemos diante da redefinição de tudo.  Este é um caminho sem volta, pois ela não muda apenas o conceito do que ela é para nós, mas modifica até mesmo a realidade do que somos. Afinal, “a mecânica quântica é muito mais que apenas uma 'teoria', ela é uma forma inteiramente  nova de ver o mundo".

Antes que seja possível nos darmos conta, já estamos apaixonados e obcecados por desvendar todos os seus mistérios.  Não é uma relação simples, de fato, é sempre uma sequencia interminável de inúmeros momentos de infinita felicidade e profundo desespero.  Por mais que aprendemos sobre ela, jamais nos deixará de surpreender.  Mesmo quando já a conhecermos por muito tempo, ela sempre terá o dom de nos trazer algo inesperado ou inusitado, mas aquilo que nos deixa perplexo é também o que nos fascina. No fundo, sabemos que nunca será algo intuitivo, mesmo assim, nunca desistiremos de tentar fazê-la ser. É a nossa natureza se confrontando com a dela.  Algo que nem podemos chamar de amor...  Pois a ligação que surge entre Ela e nós, vai além de sentimentos ou razões ordinárias, exige uma forma de percepção nova que não sabemos qual é, mas temos plena certeza que é completamente diferente de todas nossas formas de percepção conhecidas. 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Cidade nos Penhascos




Do outro lado do mundo, em um lugar que poucos se aventuram, existe uma cidade esculpida nos penhascos. Ninguém mais se lembra qual foi o primeiro desbravador que um dia achou que naquelas pedras duras seria possível construir uma vila.  Porém, muitos o seguiram, homens, mulheres e crianças, que acreditaram que um lar poderia ser elevado naqueles rochedos; uma morada que ousava tocar as nuvens.

Também tiveram muitas perdas nos primeiros anos...  Naquelas terras de alicerces inseguros, alguns dos mais ousados viram suas casas despencando para o profundo azul do mar. Infelizmente, muitos acompanharam suas malogradas construções neste último encontro com o frio fim de um sonho.

Parece estranho que um pai decida deixar a segurança do solo firme da planície pelas incertezas dos penhascos, mas para os que aceitam viver cercados pelas incertezas sempre resta uma recompensa:  Aos criados nas terras de penhascos, o clima, o solo e as necessidades os agraciaram com uma sabedoria que só germina entre aquelas que trilham os caminhos mais árduos.

Em uma altitude que faz o ar ser tão rarefeito, desde a mais tenra idade, se aprendia o valor do respirar. Estavam sempre conscientes de cada simples inspiração e expiração, para aproveitar o máximo desta dádiva tão escassa. Entre as construções sempre haviam traiçoeiras fissuras, que poderiam levar os mais distraídos a um trágico fim.  Os passos precisam ser bem cuidados,  com o tempo mesmo os mais afoitos aprendiam que a segurança não estava na vigília tensa e preocupada do andar, mas em ter a atenção adequada aos tempos e oportunidades da ação e da inação.

Naquela cidade, a vida era dura e a sobrevivência sempre dependia da força da escalada. Porém, os homens daquele lugar aprenderam a viajar para dentro de si mesmos quando lhes parecia faltar a energia que precisavam a sua volta.  Até mesmo quando as companhias deixavam de ser brisa  para soar como tornado, eles sabiam se proteger no abrigo de suas solidões. 

Apesar das dificuldades (ou, talvez, exatamente por elas),  estes habitantes sabiam estar abertos para as dádivas que recebiam da Natureza: o sol da manhã, a beleza de suas paisagens, o apreço da ventos amenos  em dias escaldantes...

A experiência de cada cidadão era mantida em sua memórias. Eles sabiam sentir o seu próprio ser e até mesmo pressentir um ser ainda mais especial que existia na memória do grupo. Quando exigido, estas memórias eram trazidas e utilizadas para dar novo folego a comunidade, mesmo nos dias que a escassez predominava.  

Além disso, também sabiam restringir seus impulsos mais imediatos. A cautela e paciência eram cultivadas com respeito, ainda mais num lugar que um simples escorregão poderia ser o último.  Estes cidadãos viviam em harmonia e podiam controlar seu tempo, sua energia e seu coração, pois conheciam o valor de se afastar de sua pretensa intelectualidade e emoções superficiais, na busca de algo mais profundo e, ao mesmo tempo, mais elevado: uma sabedoria adquirida no observar do contato do oceano com os grandes penhascos.

O único aparente prejuízo para aqueles bravos moradores dos penhascos era a dificuldade em visitar e conviver com os habitantes das planícies, que esqueceram a arte de observar os céus e se contentavam com a inércia de permanecerem sempre no mesmo plano.  Para um andante dos penhascos, a planície era sentida de forma densa e pesada, terra daqueles que viviam com um horizonte tão limitado e, mesmo assim, consideravam-se donos da vastidão (Essa era só uma das muitas insanidades dos moradores das planícies). Mesmo assim, os senhores dos penhascos mantinham o hábito (e esforço) de visitar as planícies em busca daqueles que, com um ar oprimido e um olhar furtivo em busca dos céus, mostravam o anseio por novos ares. Era trabalho daqueles que vinham dos penhascos, reconhecer estes deslocados moradores das planícies e levá-los para a sua cidade nas alturas, dando-lhes a chance de encontrar o novo que tanto ansiavam.  Assimera a vida daqueles que dominaram a arte de viver nos penhascos.


domingo, 20 de maio de 2012

Ostras e Pérolas


Em memória da minha Vó  Tilia 


Conta-se que as pessoas de uma pequena ilha se especializaram na arte de produzir as mais belas pérolas que já se viu. Os homens e mulheres encarregados de tal tarefa eram conhecidos como os Cultivadores de Ostras. Tal atividade necessitava de uma grande disciplina e paciência, ainda mais sabendo que produzir pérolas dependia mais da boa vontade das ostras do que do serviço de homens ou mulheres.

Os cultivadores procuravam regiões de enseada de sua pequena ilha com o mar calmo e ondas mansas e colecionavam as ostras em longas fileiras presas em região rasa, na qual as ostras poderiam obter seu alimento facilmente. Contudo, o segredo das mais belas pérolas residia na arte de impor um ‘tormento’ que incomodasse muito a ostra, mas não causasse dano ao ponto de levá-la a morte. O cultivador separava pequenas pedras irregulares e, delicadamente, abria cada ostra e lá depositava o pequeno infortúnio sobre a carne macia. Após a ostra fechar, o cultivador esperava que esta resolvesse seu incomodo da maneira que elas costumam lidar com seus problemas: madrepérola.

Para livrar-se da dor e da irritabilidade daquela pedra ferindo seu âmago,  a ostra produzia madrepérola e devagar, mas constantemente, ia recobrindo a pedra que nela foi inserida. Camada a camada, a ostra torna aquele incomodo em uma esfera (quase sempre perfeita) que era o objetivo e ambição dos cultivadores. Enquanto o trabalho era feito pela ostra, cabia aos homens esperarem os tempos que a natureza impõe aos seus processos.

Aquela comunidade da pequena ilha não apenas vivia do trabalho com as ostras, mas também aprendia com elas. Assim, os sábios cultivadores ensinavam aos  mais afoitos e jovens que o cultivar está na arte de escolher as pedras na medida certa que a ostra possa suportar e resistir. Aqueles que cultivam a paciência e a superação diante dos mais persistentes incômodos (infortúnios), por fim, podem ser laureados com as mais belas pérolas. 

domingo, 11 de março de 2012

Um Cordel da Física


Sempre gostei de Literatura de Cordel, seu ritmo, sua criatividade... Muitas histórias de homens espertos que desafiam e superam desafios. A algum tempo atrás, escrevi este aqui, que é uma certa homenagem a um grande cientista e pensador. Porém, não havia surgido uma oportunidade adequada para 'divulgar'. Não sei se ainda é atual, mas na falta de texto melhor para hoje, mando este e espero que os leitores deste blog apreciem. 

Einstein que a luz domou e a ele 
(quase provavelmente) ninguém superou.


Vou contar para vocês a história de um caboclo pensador
Uma criatura com cérebro de aço
Que até domou as curvas do espaço
Fez o tempo ser seu seguidor
Einstein era seu nome 
E confundiu os miolos de muito homem
Com suas ideias avançadas
Para além das ciências que eram, até então, domadas
Esse homem viu que tudo era relativo
E assombrou mesmo o cidadão mais altivo
Disse que luz é a coisa mais rápida
E nada mais rápido que luz pode correr
Nem os potros mais arredios
Nem os trens mais esbaforidos
Nem o saber da informação
Mais rápido que a luz  se vão.

Muitos tentaram a Einstein contradizer
Com seus aparatos experimentais incrementados
Cuspindo neutrinos endiabrados
Recusavam-se ao limite da velocidade da luz reconhecer
Muita discussões e complicados falatórios
Nos jornais, tvs, internet e laboratórios 
Mas um mal contato de um cabo foi o vilão
Da quase superluminal descoberta que se perdeu em vão.

Lá do céu, Einstein, juntinho de Deus
Ria daqueles que a Relatividade tentaram desafiar
Só uma tristeza em seu coração ardeu
Deus, brincalhão, toda a eternidade aos 'Dados jogar'
Desculpe-me, Sr. Einstein, mas sobre a Mecânica Quântica
Não deu para o senhor como sempre acertar
As probabilidades de tudo é com o que o Universo fica
Assim, o provável e o aleatório estão a nossa volta a reinar

Mesmo assim, lá vai o caboclo pensador, domando os céus montado num raio de luz,
Dobrando espaços e buscando a TEORIA DE TUDO que a muitos seduz.


domingo, 23 de outubro de 2011

Questão de escolha



Para todos é vendida uma imagem dominante de que o essencial é fazer a diferença. Estamos aqui por algum motivo, não? É esperado que cada pessoa tenha seu talento, algo que o torne único (mesmo sendo um em sete bilhões...). Passamos nossa vida seguindo caminhos e decidindo sobre escolhas que fazem (ou deveriam fazer) de cada um de nós uma história única em cada nuance. Mesmo assim, sentimos que compartilhamos algo em comum com qualquer outro humano, chamamos isso de valores universais. Afinal, o que um homem sente, pensa ou valoriza é o seu universo, não?  Entretanto, eu imagino, com o receio que os "valores universais" nos tornem iguais demais definimos nossa fé: numa religião, numa posição politica, numa pátria, numa língua, numa escolha sexual, numa insígnia de alguma equipe de algum esporte. Defendemos, amamos e algumas vezes matamos (uns aos outros ou a nós mesmos) por essas coisas. Uma definitiva reafirmação de nossa individualidade! (Com boa dose de intolerância e estupidez generalizada, que também devem ser valores universais; ao menos, parece ser algo espalhado por toda parte...).
A cada nova escolha nos tornamos um pouco mais diferentes ou, talvez, nos tornamos mais e mais iguais ao que realmente somos. Complicado.... Sim, eu também acho complicado.... E, olha, que nem entrei na questão de livre arbitrio e/ou determinismo que tornaria isso tudo longo demais rsrs. Outro dia, ouvi que a liberdade é formada por dois fatores: escolha e controle. Precisamos acreditar que possuímos ambas para nos sentimos livres. Pense um pouco, isso até que faz sentido.
Acima de tudo, precisamos acreditar que temos o controle sobre nossas escolhas e também a esperança em ter algum controle sobre as consequências daquilo que decidimos. A grande angústia do processo de escolha é que elas nos limitam a enxergar apenas o mundo constituído por aquelas que foram feitas. Todas os outros caminhos que seriam possíveis são perdidos em algum lugar que nos parece inacessível. Engraçado, que este dilema também aparece, de certo modo, em ciência: mais especificamente em física quântica e a questão do colapso na medida... Não entrarei em detalhes técnicos sobre isso, mas tal questão impressionou tanto os cientistas que Hugh Everett surgiu com uma ideia curiosa que, se não teve tanto impacto na ciência em si, incitou muito a imaginação da ficção científica e da indústria dos filmes: a interpretação de muitos mundos (ou multiversos, se preferir).  Nesta interpretação não ocorreria o colapso da função de onda para estado medido, mas para cada uma das possibilidades surgiria um universo para cada um dos possíveis resultados. 
Ainda há físicos ‘simpatizantes’ da interpretação de muitos mundos e eles até a usam com algum sucesso para explicar fenômenos quânticos, até mesmo, a viabilidade de viagem no tempo. Para o dia-a-dia e o homem comum resta o fascínio por imaginar que todos os possíveis caminhos ocorrerem em sequencias infinitas de universos paralelos. Contudo, isto não possibilitaria o acesso a nenhum destes outros mundos ou o seu conhecimento; aparentemente, estamos fadados apenas ao nosso Universo e a contemplarmos apenas o mundo específico que criarmos com as escolhas que fazemos. O que, pessoalmente, já considero bastante responsabilidade e muito o que entender. E a cada escolha que fazemos vamos nos distanciando daqueles que éramos antes da escolha ser feita e nos fazemos únicos entre sete bilhões ou algo assim. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sem tempo.


from: http://freelanceswitch.com/freelance-freedom/freelance-freedom-13

Em nossos dias, um dos fins apocalípticos mais populares dos filmes é o ataque de um vírus terrível (ou algo assim) que dissemine a praga Zombie por toda parte. Criaturas sedentas vagando com um único propósito: saciar sua fome. Tal mal se espalharia sem precedentes até levar a vida como conhecida ao derradeiro FIM. Todos concordam que estamos bem longe deste mundo comentado. Contudo, temos sinais claros de criaturas sem vida entre nós. Vagam também ativadas unicamente pelos sua fome extrema: quase sempre o trabalho. 

Os nossos dias passam em uma sequência aborrecida e preenchida por todo tipo de  atividades (poucas que realmente nos agradem). Vivemos num mundo de tarefas a cumprir, reuniões a comparecer e prazos, sempre muitos prazos a satisfazer…

Independente de quanta dedicação tenhamos a tudo o que façamos: sempre estamos em falta. Sentimos culpa por não dedicar o tempo necessário a nossa família, aos estudos, às nossas paixões. Nem mesmo para nós mesmos permitimos a reserva de algum tempo. Temos prioridades e urgências. Tudo urge a nossa volta e acanhados de falhar em nossas tarefas acolhemos passivos a nossa sagrada agenda. Temos tantas obrigações com tantas pessoas e tudo a nossa volta, que é impossível não estar em falta com algum deles. Simplesmente, não há tempo suficiente.

Da criança que fomos, apenas a lembrança de que o dia era a oportunidade para nos deliciarmos com o que havia para descobrir. Além disso, só ficou mesmo o rastro do Coelho de Alice e seu mantra obsessivo: ‘Estou atrasado, estou atrasado, estou atrasado'.

Em todos as áreas da vida a pressa torna-se a regra básica. Por exemplo, no trânsito (templo supremo da impaciência) até as cores do semáforo ganham novos tons: Verde: ‘Ainda bem, não posso parar’; Vermelho: ‘por que não anda logo?’ e o Amarelo: ‘Acelera, acelera antes que fique encarnado’.  Dos hábitos alimentares, um tipo de comida daquelas famosas lanchonetes torna-se o nosso guia espiritual. Agora, Tudo é FAST! Que seja o FastFood, o FastSleep, o FastFun, o FastLove… Só nos resta um FastLive!

Uma grande pena, me disseram que há um lindo mundo aí fora para se ver, se você tiver tempo para apreciá-lo. Talvez, ainda não estejamos cercados pelos Walking Deads. Todavia, amargamos um fim ainda mais melancólico e lacônico: estamos todos nos tornando Running Liveless.

sábado, 27 de agosto de 2011

Um amigo irá casar.

Dedicado a um grande amigo.



Tenho um amigo que irá casar. Óbvio, que isto me trouxe lembranças, mas não falarei de altos e baixos de um relacionamento finado... Hoje, não é o dia para eu me iluminar ou obscurecer. Os holofotes devem ser para meu bom amigo.

Quero escrever uma homenagem (reflexão) ao meu amigo e seu casamento.  Gostaria de ser original ao falar de amor, mas sei que estou fadado ao clichê. Tudo já foi dito e esmiuçado sobre amor, até mesmo, as ideias mais controversas ou inusitadas.

Meu amigo já passou pelo casamento civil e sua estranheza jurídica.  Os ditos direitos e as devidas penalidades, caso ocorra a quebra de ‘contrato’ (modos de separação de bens).  O que eu tanto estranho nisto? A antecipação do que fazer, caso não der certo. É como ir a um grande banquete com deliciosas iguarias, mas no caminho repassar os procedimentos para o possível tratamento de azia. Talvez, eu seja ingênuo, mas neste ponto respeito os ritos religiosos: Amor tem que ser absoluto em esperança, passo desenfreado e otimista rumo a eternidade. Todo relacionamento deve ter o direito de nascer com intuito de ser “para sempre” (independente, de quanto o para sempre dure).

Os preceitos religiosos são bem diferentes (não que eu apoie qualquer sitematica em específico). Na igreja tudo é beleza e a Noiva surge como manifestação de infinitude. Em tom baixo (sussurro só para si), o Noivo convoca que ela apresse o passo. Alcance logo a sua mão e a cerimonia termine em um piscar. Afinal, ao vê-la tão especial, percebe que a eternidade é um tempo curto demais para tudo o que precisa ser vivido; viver é verbo efetivamente transitivo e exige objetos (e objetivos) diretos e indiretos para se manifestar plenamente: amor e casamento são alguns deles.

Nem sei se tenho o direito de dar conselhos sobre casamento. Afinal, sou divorciado e, atualmente, estou só (exercito a tarefa da busca).  Mas, meu amigo, encare isso como uma opinião técnica de um ‘empresário não tão bem sucedido’, daqueles que se não conhecem a receita definitiva do sucesso, mas ao menos já trilhou um dos caminhos do não bem sucedido rsrs Meu único conselho é: Não permita que seu amor sufoque pela doçura. O Amar deve ser como o Chocolate Amargo! A doçura em excesso entorpece e enjoa o paladar dos sentimentos levando qualquer sensação à infindável mesmice. O Amargo traz o equilíbrio e abriga a ação dos opostos para sanar o tédio.

A doçura pode até parecer perfeita, mas toda perfeição carece de sabor. O Amargo empata os contrários e traz desapego ao que deveria ser ideal. Ele prepara os espíritos para saborear as surpresas da realidade e, por vezes, o apimentado das adversidades. O Amargo concede que o amor (dos deuses) seja verossímil ao paladar dos humanos.

É no desequilíbrio das expectativas que surge a harmonia do bem conviver e o trampolim para um viver mais pleno. Porém, tudo isso é apenas teoria, na prática, não se esqueça das palavras do poeta dos outonos: “Amar se aprende amando”. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Primeiro exercício literário: 'Paredes de Multidão'


Estou fazendo uma Oficina Literária On-line. Um dos pontos divertidos é 'escrever sob encomenda'. A cada semana uma missão e dela surge um texto. O desafio sempre é um caminho adequado para desenvolver habilidades. Tento domar a minha criatividade; o curioso é que até funciona. Nesta atividade, eu deveria usar uma música para me inspirar. Estou compartilhando aqui em meu blog o que produzi na última semana (já apresento com algumas correções sugeridas) e a música que me inspirou. Exercício curioso é ler o texto enquanto a música toca... É intrigante como 'trilha sonora' dá um sabor extra ao que foi escrito. 



Boulevard Of Broken Dreams - Green Day



Paredes de Multidão


Após um longo dia de trabalho, sigo o meu caminho para casa. Dentro de um ônibus cheio, vou à estação Butantã. Tantas pessoas a minha volta: sons, cheiros e impaciência. Eu vou silencioso e insipido, enquanto a viagem atiça a minha peçonha e aumenta ainda mais o meu mal humor.

Finalmente, chego à linha amarela, mas é só o começo do meu caminho de metrô.  Aguardo ansioso para ir à Paulista; esta é a parte fácil do trajeto. Árduo, de fato, é alcançar o Paraíso. (Pior, nem é a minha última parada!) No caminho entre deixar a amarela e estar na verde há uma imensa galeria de corredores. Tubulações, paredes e sinalizações pintadas em cores fortes e berrantes; tentando minimizar o pálido cinza das faces das pessoas: todos tão impassíveis quanto eu ao colorido à nossa volta. Não preciso me preocupar com o caminho que devo seguir, pequenas faixas restringem nosso andar e os muros feitos de pessoas me levam sem qualquer outra opção além do marchar sincronizado. Chegar ao Paraíso não é para quem tem escolhas a fazer, mas sim para aqueles que aceitam se submeter ao caminho imposto.

Sinto-me tão só naquela multidão; imensamente perdido e vazio. Quando estou sozinho em minha casa, sou o único que há e, portanto, tão vasto quanto tudo ao meu redor. Contudo, nos corredores do metrô, certado e limitado por tantos desconhecidos, perco até mesmo quem eu sou: torno-me bando. Arrebanhado por regras de movimento: ‘mantenha-se a direita; siga a seta verde para o próximo trem’. São tantos com (talvez, sem) vidas tão iguais a minha, que mal consigo distinguir-me em meio aos outros.

Além do destino que busco, não conheço nada ao meu redor e ninguém para conversar. Porém, isso não cessa o ruído; todos a minha volta falam: os fragmentos desconexos de suas conversas estilhaçam em meus ouvidos. Ecoam na ausência de significado que tantas vozes indistintas têm para mim. Não há sofrer em minha solidão efetiva, apenas desconcerto. Seria um sinal de que estou quebrado de alguma forma?

Cheguei ao Paraíso, mas ainda estou longe da minha casa. Todavia, devo parar por aqui. Estou a passos de exceder o meu limite (de linhas). Não termino a história, só o texto; entretanto, nem me frustro. Apenas, mais uma regra me limitando, dizendo onde meu caminho começa e termina, seja na linha do metrô ou na entrelinha do texto; a única coisa que permanece real é o meu sentimento de solidão aprisionado entre paredes de multidão.



domingo, 12 de junho de 2011

Busca entre Torres

-  Historieta UFABCiana para o dia dos namorados -


Era uma vez um Físico, que não satisfeito com tudo o que desconhecia do UNIVERSO, queria tentar a sorte também em um outro grande mistério: O AMOR. Assim, começou a buscar ao seu redor. Na Torre TRÊS, o Físico conheceu uma Bióloga, porém não sentiu a Química necessária; desistiu de explicar isso por qualquer Filosofia barata e resolveu tentar outra torre. 


Pensou consigo e correu para Torre UM. Pelo que ouvia, lá havia aquelas que trabalhavam com Ciências Sociais Aplicadas: sociabilidade poderia ser o caminho a seguir... Contudo, mesmo vagando por dois andares, percebeu que não possuía a Engenhosidade necessária para encontrar quem buscava. Refletiu e percebeu que precisava de uma estratégia melhor calculada e soube muito bem para onde ir. 


Na Torre DOIS, buscou com uma moça a solução, mas ela o desmotivou ao mencionar que ‘seu dilema era Computacionalmente inviável de ser resolvido’. As máquinas não sabem Pensar o Amor... Como último recurso, recorreu a uma amiga Matemática: ela afirmou que o problema dele tinha uma solução e que não era única. Contudo, para maiores informações seriam necessários teoremas ainda não provados e axiomas refutáveis. 


Não encontrando aquela que ele buscava, o Físico resolveu esperar a evolução natural dos eventos, sem se preocupar com predições do que há por vir. Porém, enquanto o físico espera, aplica seu conhecimento na busca da Fusão Eficiente. No dia que sua amada surgir em sua sala, ele a presenteará com um ‘buque de estrelas’ cultivado por suas próprias mãos. 

domingo, 1 de maio de 2011

"What makes you a coward?"-- "It's a mystery,"


"It's a mystery," replied the Lion. "I suppose I was born that way. All the other animals in the forest naturally expect me to be brave, for the Lion is everywhere thought to be the King of Beasts. I learned that if I roared very loudly every living thing was frightened and got out of my way. Whenever I've met a man I've been awfully scared; but I just roared at him, and he has always run away as fast as he could go. If the elephants and the tigers and the bears had ever tried to fight me, I should have run myself--I'm such a coward; but just as soon as they hear me roar they all try to get away from me, and of course I let them go."

Em que lugar a coragem é guardada? Por que alguns de nós tem tanta e outros tão pouca.... O pobre Leão era um covarde e, a pior parte, era consciente disso. A maioria de nós tem sua covardia lá dentro, escondida no fundo e camuflada por uma atitude de ‘sensatez’; por vezes, "um rugir" para ludibriar os outros. Esconder o que, de fato, sentimos... Por vezes, nosso "rugir" é tão alto e soa tão autêntico que até nós mesmos acreditamos nele; coragem aparente.


Todos temos nossos medos, em suas mais diferentes formas, nas mais variadas escalas de intensidade. Todos nos sentimos fracos quando é preciso tomar uma decisão realmente importante ou encarar um caminho repleto de incerteza e escuridão. Todos nos acovardamos quando é preciso seguir através de uma barreira ou desistir de algo que consideramos vital (Aprenda que desistir nem sempre é sinal de covardia: algumas desistências precisam ser munidas da mais ferrenha coragem para serem bem sucedidas). Quando nos encontramos nestes impasses, quase sempre, descobrimos de algum modo como prosseguir. Então, dê onde obtemos essa coragem? Pessoalmente, acho que não obtemos... simplesmente fazemos o que é preciso ser feito.


Temer é normal; porém, voltar atrás ou parar é inaceitável, até mesmo, condenável. (Continuo com minhas alusões aos caminhos, todos eles bastante distintos). Assim, seguimos, fazendo escolhas e as repensando. Será que foi realmente boa?  Se a resposta é sim, você continua; se for não, você procura o modo para refazê-la ou corrigir o que for possível. Existe muito mais coragem em admitir o erro, que persistir cegamente na escolha errada; porém, quase nunca, é natural aceitar isso e mudar a atitude.

Sobre nosso amigo Leão, ainda não cheguei à parte do livro em que o mágico o presenteia com a "cura da covardia". Porém, se eu fosse o mágico de Oz, eu daria ao Leão este texto de Clarice Linspector; coragem (ou ausência de) é uma questão de ESCOLHA:

“Gosto dos venenos mais lentos, dos cafés mais amargos, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.

Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:- E daí? Eu adoro voar!

Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre."

Talvez, a coragem sempre seja apenas isso: uma ilusão (de escolhas). Talvez, a coragem seja apenas aquela loucura que vemos nos olhos dos outros quando experimentam a sensação de queda livre e apreciam isso até o derradeiro instante.  Invejamos essa insanidade alheia, pois só a loucura concede a liberdade necessária para que se tenha a coragem irrestrita, a ousadia de pensar o imponderável e a possibilidade de um coração pleno. Sem essa loucura, a vida torna-se apenas um caminhar vazio em uma irrisória estrada dourada levando a uma cidade de mentiras e falsas esperanças. 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Metal por toda parte, coração em lugar algum.




"Do you suppose Oz could give me a heart?", asked Tin Man. "Why, I guess so," Dorothy answered. "It would be as easy as to give the Scarecrow brains."

Hum.... Ter um coração é tão fácil quanto ter um cérebro?!? I'm not so sure. Lembro-me, muito pequeno, de ouvir de meu pai: "Homem não chora"; que, basicamente, significa homem NÃO SENTE! Não culpo meu pai pelas suas palavras, ele apenas me ensinava o que aprendeu de seu pai, que aprendeu de seu pai, que aprendeu de seu pai, que aprendeu de seu pai... e está linha vai longe até, provavelmente, o primeiro homem. 

É difícil sentir, melhor é pensar que não se sente. Transformar todo desejo, vontade, anseio em objetivo claro e bem argumentado... Não fazemos porque sentimos que devemos fazer, mas porque é o mais lógico a ser feito; RACIONAL! Algumas mulheres podem dizer "os homens de hoje em dia estão mudando; são mais conectados com seus sentimentos". Isto é pura balela! Alguém deve ter contanto para eles que isto era uma ótima "jogada" para "pegar" mulher... rsrsrs No fundo, somos todos homens de lata! Mas isso não é um atributo exclusivo ao gênero masculino, há inúmeras mulheres de latas também (Bem como qualquer outro gênero que considere mais politicamente correto mencionar... A 'Latidade' independe de gênero.). Vivemos tempos de cidades de Concreto e pessoas de Lata. As poucas sensações que nos permitimos também são as enlatadas; aquelas de fácil consumo: compra, troca e venda. 

O personagem de hoje é o Tin Man (o Homem de Lata). De todos os personagens, é o meu favorito, me identifico muito com ele e seus dilemas e anseios. Ao menos, eu me identificava antes; agora, preciso pensar mais sobre isso. De qualquer modo, nosso Tin Man não possui CORAÇÃO e esta ausência o faz SOFRER...  Hum, sinto uma certa incoerência aqui!?! 

De qualquer modo, se a insana idéia do Scarecrow de conseguir um cérebro fazia algum sentido; por que não desejar um coração? Provavelmente, o Tin Man teria ficado cheio de esperança, se tivesse um lugar para colocá-la. Ele seguiu adiante porque possuia um sonho e uma dica de qual direção tomar para alcançá-lo; passos largos para Emerald City!

Pense bem, quando não se tem um deles (cérebro ou coração) é fácil tentar conseguí-lo. O difícil é quando se tem AMBOS, mas é necessário deixar UM deles para trás. Isto sim, doí. Quase todos nós precisamos fazer este tipo de escolha em algum momento (Os mais azarados, o tempo todo =/). Olhar de frente, EMOCIONAL e RACIONAL, e optar por um deles, pois quase sempre eles levam a direções diferentes, frequentemente, opostas. Escolhemos porque é preciso! Na vida nos tornamos Scarecrow ou Tin Man; vagando pelo mundo e deixando parte de nós para trás. Todo sonho tem seu preço, o que é preciso saber é se você está disposto a arcar com as despezas.

Voltei a ler "The Wonderful Wizard of Oz", quero lembrar qual o destino de cada um deles. Quanto ao meu... ainda é uma história sendo escrita e estou tentanto manter todas as minhas partes juntas rsrsrs. Porém, independente do que for necessário deixar para trás, ainda é imprescindível seguir adiante. Isto é uma VERDADE para todos nós.



quarta-feira, 27 de abril de 2011

"If I go to the Emerald City with you, that Oz would give me some brains?"



Pelo título, podemos perceber que hoje é dia de falar do Scarecrow (Espantalho) e a sua busca por sabedoria, ou melhor, algum cérebro (Claramente, duas coisas bem distintas!). 
O ingênuo Scarecrow busca saber um pouco mais do que ele sabe. Ele considera que não tem cérebro. Uma dedução obtida ao observar o próprio trabalho: permanecer estático a espantar corvos. Qualquer um pensaria que não seria necesário muito cérebro para isso e, provavelmente, não precisa mesmo. Muitas vezes, quando alguém nos pergunta: Quem é você? - A resposta, quase automatica, é: "Eu faço (...)" ou "Eu trabalho com (...)". Na maior parte do tempo não somos Pessoas, mas Funções... Que somos aquilo que fazemos (afirmação bem Existencialista) até posso aceitar, mas que sejamos somente aquilo pelo que nos pagam para fazer... Hum, não sei não. Parece que é tudo igual para você? Se assim for, isso sim é falta de inteligência, ao menos, do meu ponto de vista rsrsrs. 
Minha mensagem é simples: O Scarecrow não precisava pedir inteligência para o Wizard of Oz, bastava um pouco de auto-confiança e isto ninguém poderia dar a ele, nem mesmo com magia. Também não há nenhuma tecnologia milagrosa que poderia dar a ele o que desejava, mesmo colocando a palavra ‘Quantum’ na frente ou por intermédio de rebuscados livros de ‘10 simples passos para...’. 
Contudo, até entendo a ingenuidade e as conclusões do Scarecrow .... Muitas vezes, eu sou "espantalho" também. Ainda mais neste(a) Universo(idade) em “consolidação” com o qual lido todos os meus dias. Tantas opiniões divergentes, tantos jeitos errados de justificar que se esta fazendo o certo. Pessoas que pressentem muita Ciência, onde algumas vezes só encontro confusão e números vazios: excelência expressa do A ao F.  Ainda pior do que ser só o que você faz, é ser apenas os números que quantificam o quão ‘bom’ você é no que faz... Nada mais triste do que o Homem deixar de ser a Obra, para ser apenas os números na planilha que refletem distorcidamente a importância da Obra. 
Para ser sincero, não acredito que a inteligência resida apenas em resolver uma equação muito complicada, manipular Hamiltonianos elaborados ou construir máquinas inusitadas. Inteligência maior é compreender a importância de fazer tudo isso. Quando era um jovem estudante, em tempos de graduação na USP, lembro-me de uma frase de um grande professor: "Bons cientistas sempre encontram as respostas certas, mas os Excelentes sabem quais são as perguntas que valem a pena responder!" 
Inteligência é NÃO menosprezar a si mesmo; NÃO deixar a auto-estima em baixa. Inteligência é saber tudo o que você é capaz de fazer e alcançar este limite. Ser o melhor que você pode ser é mais que uma obrigação (Acho que parece livro de auto ajuda, mas eu precisava escrever isso). Eu não CULPO o Scarecrow pelo que ele pensava de si mesmo, mas eu também não o DESCULPARIA se ele não fosse a Emerald City buscar o que ele ansiava conseguir; ir pelo caminho que acreditava que o tornaria tudo que poderia ser. Para algumas ausências, reconhecê-las já representa o seu preenchimento, pois dar-lhes um nome e um propósito é o requerido para transformá-las em presenças. 

"I don't think this is Kansas ..."


Sempre gostei de certas histórias que povoavam minha infância. De certo modo, sempre vi filosofia e sabedoria nestes contos infantis. Quem me conhece um pouco melhor, sabe que sempre apareço com alguma referência ao "Alice's Adventures in Wonderlands"; de longe, Alice é a minha favorita... 

Entretanto, não é a única lembraça  dos tempos de criança que aprecio para minhas alusões sobre ‘a Vida, o Universo e Tudo Mais...’ (rsrsrs).  Outra história que também me fascina é "The Wonderful Wizard of Oz" com seus carismáticos personagens. A estranheza da vida em relação aos nossos desafios  e consequentes dilemas que surgem, por vezes, são muito  similares aos destes personagens.

Pense bem nas linhas gerais da história: Um homem de lata que busca um coração; Um espantalho que busca um cérebro; Um leão que busca coragem e uma jovem garota (Dorothy) que busca um caminho (para retornar a sua casa). Uma representação clara da vida - sempre uma BUSCA; constantemente, mais do que um simples seguir adiante. 

No mundo de Oz, cada um destes personagens encontrou algo, que se não era o que queriam ou esperavam, ao menos era o que necessitavam naquele momento, mesmo que a conscientização disso só surgisse muito depois; misteriosos desígnios da vida (ou  provavelmente, apenas capricho do autor). Os personagens de Oz têm características tão interessantes que é preciso um post para comentar cada um deles. Assim, essa será a semana  de Oz e começo pela jovem Dorothy e sua famosa frase: "I don't think this is Kansas..."

A jovem Dorothy, de repente, se viu jogada num outro mundo: lugares, pessoas, comportamentos absurdamente distintos do seu confortável e bem conhecido "Kansas" (mesmo que não tão feliz). [Nada diferente de nós, quando nos percebemos em um ‘novo estado civil’, ou em um completo ‘novo ambiente de trabalho’]. Um misto de espanto, horror e excitação acompanhou essa menina durante a nova situação.  Porém, desde o momento que ela chegou àquela estranha terra, tudo que desejava era retornar a sua casa. Assim, começou sua caminhada pela estrada de tijolos amarelos, mas com a obsessão de se manter a mais conectada possível ao seu mundo e retornar a ele (Mas havia, de fato, o porquê de voltar?). Encontrar o caminho para o que  era o 'seu' bem conhecido, amado e, portanto, seguro mundo! 

Eu, realmente, não lembro se Dorothy encontra sua casa, mas lembro de que Dorothy pouco a pouco tornar-se parte de Oz. Todavia, não é fácil admitir a mudança e aprender a viver com ela. Seguir o caminho nunca é fácil, mas é preciso! Perceber que o diferente não é necessariamente ruim, aceitar que possivelmente é o mais adequado e natural para o que há por vir. Em “The Wonderful Wizard of Oz”, acredito que a maior lição sobre a menina que vemos foi que Dorothy aprendeu a ser Dorothy, onde Dorothy estivesse... Qualquer semelhança nunca é mera coincidência! 

segunda-feira, 21 de março de 2011

A derradeira queda de Ícaro



Ícaro era filho de Cronos (o próprio tempo) e de uma escrava de Perséfone (aquela que ficara indecisa entre mundos). Como qualquer filho, Ícaro era avesso aos modos dos pais; portanto, um jovem afoito, apressado e ansioso por deixar o que era o seu bem conhecido mundo. Ele tinha sonhos de grandeza e conquista: alcançar o inalcançável.

Para realizar os sonhos de Ícaro, seu pai criou, em penas e cera de abelhas, um grande par de asas. Contudo, advertiu ao jovem que fosse comedido: que evitasse a arrogância de encarar o grande Astro Rei olhos nos olhos e que evitasse fitar de perto os grandes mares com sua fria e discreta profundidade. História ainda mais antiga que a dos gregos é a de filhos que pouco caso fazem das palavras do pai. Tão sábios e perspicazes se imaginam estes jovem...

Ícaro se denominou Senhor dos Céus, causando inveja até ao próprio Zeus, tamanha a naturalidade e elegância com que o jovem rasgava o leve azul e fluía entre as nuvens.  Contudo, nenhuma liberdade em demasia é mantida impune, nenhum privilégio prevalece sem um preço.  Zeus mandou que seu filho Apolo conduzisse a carruagem dos céus e levasse o jovem imprudente ao acerto de contas. Ícaro, em sua teimosia, mal percebeu que arriscava as asas e a vida. O inevitável ocorreu e, gota a gota, a cera das asas caia ao mar: lágrimas de um sonho que se desfez.  Quando o jovem se conscientizou do fato, já era tarde para qualquer prudência. Ícaro, pateticamente, batia desesperadamente os braços, que já não possuía uma única pena para apaziguar a voraz gravidade. O jovem era atraído para seu destino com o inverso do quadrado da distância do fim.

Pela última vez, Ícaro rasgou, rodopiou e sinalizou no céu, mas agora sem a graça de outrora. Ele aprendeu que para todo aquele que alcança o seu Apogeu, nada mais resta que conformar-se da proporcional e vertiginosa queda. Contudo, os poucos que testemunhavam os últimos instantes de Ícaro, acreditavam ter visto claramente um sorriso no rosto do azarado rapaz e de alguma forma ele emanava paz.  Fato que era completamente incompreensível para aqueles que o observavam. Afinal, eles sempre foram  apenas homens que jamais ousaram tirar os pés do chão daquela poeirenta vida rotineira e, portanto, não podiam conceber o engrandecimento de alcançar todo o seu potencial, mesmo que para isso fosse inevitável a derradeira queda.

terça-feira, 8 de março de 2011

O Equilíbrio de Penélope

A  uma  mocinha.



Quase toda aventura se inicia ao deixar a casa. Enfrentar o grande mundo a nossa frente, buscar aquilo que muitas vezes nem sabemos muito bem o que é, mas é exatamente o que nos inspira a partida. Quase toda aventura é sobre conquistar algo que nos aguarda e, quase sempre, não se sabe ao certo se pode ser encontrado e, até mesmo,  obtido.  Contudo, uma das mais épicas aventuras já relatadas trata exatamente do trajeto inverso: uma busca pelo retorno ao lar! Eu falo da grande Odisseia de Ulisses. Nesta triunfal história, o protagonista Ulisses enfrenta diversos desafios, monstros e Deuses para voltar a sua sonhada Ítaca; ilha na qual era o rei por direito.

Pessoalmente, admiro as proezas de Ulisses, mas não o considero a figura mais interessante de Odisseia. De fato, a personagem mais carismática é Penélope. Muitas vezes, ela é retratada como uma figura passiva: apenas a esposa que aguarda pacientemente o retorno do marido. Todavia, Penélope é muito mais...  Ela é o pilar que mantem a ilha de Ítaca como o lugar para o retorno de Ulisses.  Ela é a inspiração que sempre faz Ulisses vasculhar mais fundo por forças para superar todos os desafios de seu percurso amaldiçoado.  

Penélope é o Principio e o Fim: Ela é o grande motivo pelo qual Ulisses inicia sua viagem de retorno a casa e também o “prêmio” pelo qual ele luta a todo instante. A aventura de Ulisses não termina nos braços de sua amada em um implícito ‘felizes para sempre’?

Penélope não é uma mulher passiva, muito pelo contrário, é a mulher de atitude que equilibra a ilha e permanece no controle, mesmo com tantos abutres tentando se aproveitar e assumir o posto de seu ausente Ulisses.  Penélope não precisava de nenhum substituto impostor, pois ela se mantém fiel à esperança do retorno do marido; firme em suas convicções. Com este objetivo, ela usou de todo a sua inteligência e, até mesmo, a sua malícia para enfrentar a oposição ao seu esposo. Pobres homens que tão pouca defesa tem contra a malícia feminina: caímos, pateticamente, em seus caprichos e nos submetemos a sua vontade...  Assim, Penélope continuou senhora de Ítaca e lutou ativamente, ao seu modo, pelo retorno de seu amado Ulisses.

Penélope foi o farol, que sempre aceso, trouxe os Argonautas através dos terríveis mares e permitiu que Ulisses aportasse em sua desejada ilha. Penélope foi a agulha da bússola que, mantida no coração de Ulisses, sempre mostrou qual deveria ser o seu caminho: o retorno triunfante aos braços de sua amada.

Bem aventuradas sejam todas as modernas ‘Penélopes’ que tornam nossas vidas interessantes, nos inspiram e nos dão o incentivo de vermos o mais brilhante Sol, mesmo quando existem tantas nuvens escuras no céu.  Louvores às ‘Penélopes’ que conseguem desenterrar sorrisos de nossos corações, mesmo quando a vida nos afunda nas tristezas das  pequenas ingratidões do cotidiano.  Benditas as ‘Penélopes’ que sempre nos recordam que acima de qualquer conquista solitária que possamos ter,  a maior de todas as conquistas sempre será aquela ‘Penélope’ de nossa vida a tecer o nosso futuro e nos amparar em sua rede de compreensão, otimismo e força. 

quarta-feira, 2 de março de 2011

A escolha de Pigmaleão.




Pigmaleão, poderoso rei do Chipre, tinha domínio sobre toda a sua terra e assim podia controlar o destino de cada ser que nela vivia. Contudo, o rei bem observou que a vontade humana estava acima de qualquer controle. Nenhum Rei jamais ousou dizer-se dono do livre arbítrio, não é?

Não é conhecido quem feriu o rei e a que dor foi submetido. Porém, o traumatizou de tal modo que apagou dele a esperança nas mulheres... Seu repudio ao gênero feminino foi tamanho que criou o seu próprio reino de solidão.  Tal como Chipre era uma ilha isolada do mundo pelo mar Mediterrâneo, também o rei se fez ilha  e se isolou protegido pelo marfim; matéria prima para suas criações.

Em seus sonhos na busca pela mulher perfeita, resolveu moldá-la com suas próprias mãos. Foi um escultor tão zeloso que realizou um trabalho melhor que qualquer deus jamais havia conseguido.  Pigmaleão extraiu do marfim a imagem da mulher mais perfeita que superava qualquer outra já vista ou imaginada. Talvez a resposta sobre o sucesso de Pigmaleão, não esteja no entender bem de perfeição (matéria da qual são feitos os deuses), mas em vivenciar o imperfeito e recusar veementemente tudo aquilo que viveu.

Pigmaleão que havia se tornado prisioneiro de sua obsessão na arte de moldar marfim, encontrou cárcere ainda mais letal: escravo da paixão desenfreada pela estátua! Amou de todo corpo e alma aquela que moldou com suas próprias mãos. Amar a estátua, de fato, era tarefa fácil e até compreensível... Ter tal amor correspondido, isto apenas em devaneios insanos. Pigmaleão orou e implorou que alguém entre os deuses pudesse permitir que tal amor se concretizasse.

Afrodite, que não é a deusa da sabedoria, mas conhece bem a loucura humana oriunda da paixão e também sabe que razão nenhuma prevalece quando o coração pulsa.  Apiedou-se daquele homem que não encontrando no mundo a sua volta quem o satisfizesse, distorceu de próprio punho a realidade para criar algo que ia além do que poderia qualquer outro sonhar.  A bondosa deusa concedeu que o frio e rijo marfim fosse convertido em flexível e quente carne de uma mulher espelhada no sonho do habilidoso artesão.

Para a imensa alegria de Pigmaleão, a estátua tornou-se tão real e cheia de vida quanto ele.  Galatea foi o nome dado a tal mulher, que não surgiu de encantos e de uma costela dele, mas de seu árduo trabalho sobre o marfim. Com Galatea, o rei Pigmaleão casou-se, teve filho e viveu ‘feliz’, pois assim que deve ser toda história que vira lenda.

Quem pode recriminar Pigmaleão por preferir a perfeita realidade que criou com o olhar de seus sonhos à crua  trivialidade que a imperfeição nos joga todos os dias?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Palavras ao vento, significados a contento.



"Vigorous writing is consice. A sentence should contain no unnecessary words, a paragraph no unnecessary sentences, for the same reason that a drawing should have no unnecessary lines and a machine no unnecessary parts. This requires not that the writer make all sentences short or avoid all detail and treat subjects only in outline, but every word tell."

Este é um trecho do livro "The elements of style" -- Strunk and White, que sempre deixo por perto para recordar-me o que é importante no escrever. Ainda, de forma mais ampla, no meu expressar como um todo. Além de considerar uma grande lição, ainda tenho a audácia de fazer isso “descer garganta abaixo” de meus estudantes quando digo o que espero de um bom relatório em minhas aulas de laboratório.

O livro (que obviamente recomendo a leitura) sempre me impressionou muito, mais ainda por ter sido escrito no começo do século XIX e permanecer tão atual. Considero que este não é apenas um bom conselho para os escritores, mas poderia ser tomado com uma instrução para a vida: Busque apenas o essencial! Isto me lembra algumas discussões com amigos budistas e o desenho da Disney "Mogli - o livro das selvas". Alguém se lembra da musiquinha do urso Baloo?? ;-)


Imagine uma vida onde você sofreria apenas o necessário para crescer. Que a saudade seria apenas o suficiente para perceber quem lhe é importante. Que as brigas fossem apenas um leve tempero para apimentar os longos períodos de paz. Que o ciúme fosse apenas a medida da apreciação, mas jamais a ruína pelo desejo de posse. Que o amor fosse apenas o sentimento na medida certa para nos trazer um propósito, mas que jamais levasse a desilusão que faz a vida perder o sentido.


Porém, estas são divagações tolas em busca de uma retórica perfeita. Pensamento de alguém que já passou tantas horas sem dormir pensando: “Mas, afinal, o que deu tão errado? Não era um plano simples” Contudo, a VIDA nunca é simples e, desconfio fortemente, jamais se resume ao essencial... Restringir ao essencial é o desejo mais profundo de minha profissão, que em seu amago arrogante anseia mostrar que qualquer sistema (independente de quão complexo seja) pode ser muito bem explicado por um modelo simples e, obviamente, que evidência a sua essência rsrsrsrsrs


Nossa, de discussões sobre bem escrever, já comecei a arranhar a reputação do Método Científico... Ahhh, esses Físicos, que nunca deixam de caminhar pelo terreno que se sentem mais a vontade: as lamas da Ciência que moldam o Universo.


Falando sério, sempre fui um grande fã de literatura e este livro sempre me inspira a querer escrever para valer. Quem sabe neste novo período, eu consiga me dedicar de forma mais regrada a isso. Começarei por tentar sempre ter uma postagem nova em meu blog, ao menos, uma por semana.... Também, tem o meu livro pela metade. Acho que já passou a hora de tentar terminá-lo.  O difícil sempre é arranjar tempo para tudo (que deve ser o tema do próximo post).


Apenas para finalizar, neste pequeno post quebrei diversas regras descritas por Strunk, mas em minha defesa uso palavras do próprio Strunk: "that the best writers sometimes disregard the rules of rhetoric. When they do so, however, the reader will usually find in the sentence some compensating merit, attained at the cost of violation. Unless he is certain of doing as well, he will probably do best to follow the rules". Isto me justifica exceto por dois detalhes: Não sou um bom escritor, nem criei algo recompensador com minhas violações as regras literárias e gramaticais. Foram apenas violações sem mérito mesmo (rsrsrsr). Paciência, quem sabe um dia aprendo a escrever bem. Até lá vocês vão ter que suportar este ‘estilinho’ tacanho que uso. É para isso que servem os amigos (e novos leitores), não?