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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Coordenar Ações


Desde meu primeiro post neste blog, estive sempre comentando sobre pensamentos e sentimentos relacionados à minha vida e ao trabalho. Em especial, sobre o meu "enfrentamento" em relação à peculiar cultura da UFABC, fortemente arraigada nas suas origens e premissas. Minhas posições oscilam desde um extremo fascínio e orgulho até um desespero e desalento de tempos em tempos. Não que a proposta seja tão difícil de entender, mas que as incoerências, muitas vezes vendidas como 'bom senso', realmente me assombram.


Desde a minha entrada nesta universidade me envolvi com as atividades do "núcleo duro" do Bacharelado em Física. Estive envolvido profundamente na montagem dos laboratórios didáticos da física e mesmo nos caminhos que os "famosos" fenômenos seguiram nestes últimos anos. Não diria que este envolvimento foi intencional, mas na UFABC sempre há trabalho e se você não é alguém que cultivou adequadamente a arte de dizer 'NÃO', acaba sobrando muito deste trabalho para você. Mais perigoso ainda é deixar que este trabalho ocupe mais tempo do que a pesquisa (atividade efetivamente muito mais valorizada que qualquer investimento em ensino). 

Nestes últimos meses, tenho sido vice-coordenador do Bacharelado em Física e, hoje, inicio meu trabalho como Coordenador. Apesar de ser um cargo eleito, não tenho número de votos a comemorar. Como chapa única apresentada para o cargo (e isto não é um caso isolado da física), a eleição nem precisou ser realizada e a "posse" como  coordenador não passou de um processo burocrático. De certo modo, isso me entristece, pois não houve espaço para discussão de propostas, confronto de ideias e assim "A Situação" permaneceu no cargo sem qualquer esforço. E fica claro o status de trabalho ingrato e não cobiçado. 

Até Agosto de 2015 estarei Coordenador e, além das tarefas básicas: oferecimento de disciplinas, alocação de professores, representação do curso na C.G. e outros fóruns, etc, fica a pergunta: o que deve ser feito neste período? O meu maior anseio é trabalhar para  definir o 'perfil do Bacharel em Física na UFABC'. A Universidade já tem "idade" suficiente para que tenhamos um tipo de 'profissional' bem definido dentro de suas variabilidades que ser físico permite. Em especial, espero conduzir a discussão, elaboração e aprovação do "Projeto Pedagógico do Bacharelado em Física - versão 2014". Neste projeto, além do que efetivamente temos feito, também seria bom deixar claro as direções para o nosso curso. Obviamente, isto não é uma atividade para um homem só e o melhor é que não estou só mesmo. Além do vice-coordenador, Adriano Benvenho, que acima de tudo é um grande amigo e com quem discuto bastante sobre essa universidade, temos excelentes professores formando a representação da coordenação, em especial, o Eduardo Novais (ex-coordenador) faz parte desta equipe e assim sei que estarei muito bem acompanhado para todo o trabalho que temos. Também existe o NDE - Núcleo Docente Estruturante - cujo papel será fundamental neste momento de rever o que foi feito, manter aquilo que é bom e sugerir modificações no que poderá ser melhor. 

Não imagino ou espero que a tarefa seja fácil e, no fundo, nem sinto que ser coordenador é algo que eu deseje. De fato, é mais algo que eu necessito. Sei que cumprir este papel poderá refinar varias das minhas características e me possibilitar ser ainda mais quem devo ser. A medida que você muda o que está a sua volta com o seu trabalho, este trabalho também te muda. E isso, quase sempre, é bom.  Assim, a partir desta semana, ESTOU coordenador do Bacharelado em Física até Setembro de 2015. Vejamos o que o futuro nos reserva. ;-)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Um texto antigo: Fenômenos: não os tema, mas os respeite.



Na típica limpeza de começo de ano do HD de meu computador , me deparei com este texto que havia escrito para uma edição da revista eletrônico "Contraste", que era editada por um grupo de alunos da UFABC e na qual eu escrevia uma seção chamada "Do Covil do Cavaleiro". Infelizmente, ela foi descontinua com um período curto de vida. Assim, meu segundo texto acabou nunca sendo publicado.  Por diversos motivos, entre eles mencionar um colega professor da UFABC que nos deixa para seguir para a Unicamp, eu deixo o texto aqui. Afinal, mesmo palavras fora do seu tempo podem trazer uma mensagem atual para alguns. =) [para ver o primeiro texto que foi publicado: http://migre.me/d4mSx]

Seção: Do covil do Cavaleiro.
Título: Fenômenos: não os tema, mas os respeite.  

O excesso de trabalho sobre os ombros de todos resultaram nesta edição surgindo um pouco depois do início do quadrimestre. Mesmo assim, vou manter a promessa de comentar sobre um grupo de disciplinas que, por vezes, causa certo horror aos jovens ingressantes: os Fenômenos.

Transcorridas mais de duas semanas deste terceiro quadrimestre, não há mais grandes surpresas: Professores bem definidos em suas disciplinas e nas outras atividades de pesquisa e extensão.  Afinal, a UFABC não poderá ser uma das 100 melhores só com o charme de nossos olhos.

Do outro lado, os alunos já sabem razoavelmente o que os aguarda no típico ritmo acelerado dos cursos que precisam ser concluídos em 12 semanas.  Conhecidos os professores, ficam claras as regras do jogo e se esse período será  traçado por ‘caminhos suaves’ ou tortuosas trilhas desconhecidas na busca por conhecimento e aprovação.

Os ingressantes, já não tão calouros como antes, iniciam todas as disciplinas que não são mais ‘bases’, mas ainda fundamentos.  Eu os alerto que agora a Universidade começa para valer: As bases sugerem que vocês não são mais crianças de colegial, mas são as FUVs, GAs e FEMECs que iniciam o processo de fazê-los homens (e mulheres) universitários de verdade.

Como Físico, preciso falar dos fenômenos, que obrigatórios, temos três: Mecânicos, Térmicos e Eletromagnéticos.  O primeiro reverencia ao grande Newton, o segundo faz jus aos muitos senhores do calor (Boyle, Carnot, Boltzmann, etc) e o terceiro glorifica ao esplêndido cientista-poeta-e-muito-mais Maxwell. Os fenômenos não são apenas a compartimentação do ‘núcleo duro’ da física clássica no BC&T, mas o tecido básico da natureza que se apresenta aos nossos olhos.

A palavra fenômeno costuma se associar ao extraordinário ou incomum. Não é à toa que a usamos aqui. Por vezes, dependendo da forma que olhamos, a natureza é vista como uma sucessão de milagres ou apenas a manutenção das leis básicas da física. A maneira como você interpreta é discutível, mas para entendê-la não há fuga: é preciso compreender o fundamental.

Os Fenômenos se apropriam de palavras comuns e expressões coloquiais para se definir e constituir: trabalho, momento, energia, coerência, discórdia... Em Física, tudo beira o incrível até se aceitar que é apenas o natural. Talvez seja essa apropriação peculiar de palavras e conceitos, juntamente com muita matemática laboriosa, que faz dessas disciplinas um material de tão difícil digestão.

Apenas para dar o ar de seriedade (e, talvez, dos problemas) das disciplinas de Fenômenos: Nos eletromagnéticos, a reprovação é de 49%, ou seja, efetivamente é como se, ao se matricular, você lançasse uma moeda e a face que surge aos seus olhos ditasse se seria aprovado ou não. Assustado? Eu espero que não. Porém, a UFABC em sua ânsia de formar os melhores, por vezes, usa a “técnica do rio para criar bons nadadores”: Você joga a criança no meio do rio, se ela sair: então, aprendeu a nadar.

Isso abre caminho para o aparecimento de alguns cavaleiros também (essa é a coluna do covil; portanto, a menção aos cavaleiros é quase obrigatória): Este tipo de cavaleiro não nasce do anseio de fazer o mal, mas da urgência de ensinar com rigor os fundamentos da ciência. Ao menos, essa é uma das classes de cavaleiros.  Portanto, a busca por excelência da UFABC é o que nutre o comportamento ‘cavaleriano’ de alguns.

Por fim, deixo meu conselho:  trabalhe com afinco e perseverança e os fenômenos serão fonte rica de conhecimento e, quem sabe, diversão. Tenha confiança, você verá que depois da Tempestade surge a Bonança (e isso nem foi um trocadilho rs). 


Dada a menção do 'trocadilho', aproveito este texto para falar do professor Marcus Bonança, que deixa a UFABC e continua a sua jornada agora na Unicamp. O Bonança é um professor bem conhecido de muitos alunos, funcionários e professores. Confesso que é um amigo que fará falta na UFABC por inúmeras razões, mas desejo que conquiste tudo o que necessita nesta nova etapa de sua carreira. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Uma mulher chamada Mecânica Quântica





Nem sempre os textos surgem como eram em nossas mentes. O simples passo de escrevê-lo já o faz ser diferente de como esperaríamos que fosse... As palavras sempre limitam o significado, mesmo assim insistimos em tentar por palavras expressar o que nem sabemos definir com os pensamentos. Esse texto surgiu de uma dessas tentativas... 



Então, alcançamos a maturidade. Surge a Mecânica Quântica, algo como uma estonteante garota na balada. Ofuscada pelas luzes e atmosfera daquele ambiente, sua simples imagem nos choca, hipnotiza e fascina.  Suas roupas, seu jeito de agir mostram algo desconhecido, ousado e até absurdo. Ela representa tudo que vai contra a nossa intuição, mesmo assim não podemos tirar os olhos dela.  Definitivamente, sentimos que ela vem para modificar completamente tudo o que concebemos como natural. Ela é autentica e pouco se importa com o que achamos que ela deveria ser. Neste primeiro momento surge deslumbramento e angustia, sabemos que a vida não pode mais ser como antes e não temos ideia do há por vir. Ela é algo completamente novo em nossa vida e demanda um olhar igualmente original da realidade para fazer sentido.

Só nos resta dar um salto para além: aceitamos que ela é algo diferente, especial e que não podemos compreender ou descrever. Mesmo assim, de algum modo, sabemos que ela é exatamente aquilo que pedimos, sem saber que era o que precisávamos.  Ao aceitá-la nos vemos diante da redefinição de tudo.  Este é um caminho sem volta, pois ela não muda apenas o conceito do que ela é para nós, mas modifica até mesmo a realidade do que somos. Afinal, “a mecânica quântica é muito mais que apenas uma 'teoria', ela é uma forma inteiramente  nova de ver o mundo".

Antes que seja possível nos darmos conta, já estamos apaixonados e obcecados por desvendar todos os seus mistérios.  Não é uma relação simples, de fato, é sempre uma sequencia interminável de inúmeros momentos de infinita felicidade e profundo desespero.  Por mais que aprendemos sobre ela, jamais nos deixará de surpreender.  Mesmo quando já a conhecermos por muito tempo, ela sempre terá o dom de nos trazer algo inesperado ou inusitado, mas aquilo que nos deixa perplexo é também o que nos fascina. No fundo, sabemos que nunca será algo intuitivo, mesmo assim, nunca desistiremos de tentar fazê-la ser. É a nossa natureza se confrontando com a dela.  Algo que nem podemos chamar de amor...  Pois a ligação que surge entre Ela e nós, vai além de sentimentos ou razões ordinárias, exige uma forma de percepção nova que não sabemos qual é, mas temos plena certeza que é completamente diferente de todas nossas formas de percepção conhecidas. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O fim da greve


Aconteceu mais uma assembléia dos docentes da UFABC hoje. Acho que tínhamos o número usual de docentes partícipantes; o que não representa a grande parcela dos contratados, mas é a parcela que se importa em vir e votar... Na UFABC, cerca de 2/3 dos docentes preferem estar em algum outro lugar quando as assembléias ocorrem. Esta assembléia se mostrava diferente das outras já no momento de sua abertura:  Quando anunciando que era da opinião do Comando Local de Greve (CLG) que a greve deveria terminar, todos já percebiam que o fim era um fato e só faltava definir alguns 'detalhes' técnicos.  Após o habitual espaço para comentários, a votação com a óbvia grande maioria votando pela NÃO continuidade da greve. A UFABC decidiu definitivamente deixar aquele campo de batalha... 

Sobre a greve, alguns falavam de vitória moral, outros de empate técnico, muitos pensavam em derrota.  Pessoalmente, não sei bem qual o resultado final. Sei apenas que eu era um dos professor da UFABC, quando ela deflagou a sua primeira greve. A jovem Universidade de apenas 6 anos de existência permaneceu por 93 dias em greve. De um modo ou de outro, isto é história e algo para se pensar... Agora, devemos voltar a normalidade e com ela arcar com as consequências de nossas decisões. É preciso recuperar estes dias parados e o 'como isso será feito?' ainda é uma incognita a ser definida em breve. Não sei o que está por vir, mas imagino que teremos muito trabalho pela frente e a lembrança dos dias de luta


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Greve ainda...





A greve da UFABC já completa seus 87 dias... Já passamos a muito tempo do sentimento de “contentamento” em fazer o certo.  Nos corredores, o peso de inúmeras opiniões conflitantes tornam a atmosfera de nossas torres densa.  Mesmo nos momentos mais descontraídos de conversas em torno da máquina de café, sempre retornamos as mesmas questões:  um possível retorno a negociação com o governo, o possível fim da greve ou a quase (im)possível reposição das aulas perdidas... 

Semana a semana, a esperança sempre esteve presente. Mesmo após a primeira e difícil “oferta” do governo (http://migre.me/awc4d), ainda se esperava que pessoas sensatas sentariam juntas para chegar a um consenso... Entretanto, esperar bom senso a cada dia parece um sonho mais inverossímil.  Como disse Descartes: "O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de se contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que têm."  Assim, aguardamos de governantes, que insistem em não nos ouvir, uma resposta para as exigências sindicais, que nem sempre representavam as nossas vozes.  Algo como um show de mímicos para uma platéia cega...  Além de tudo, lidamos com uma população estarrecida pela impertinência de não pararmos a greve mesmo com aumentos de até 45%... Peripécias numéricas governamentais para iludir aqueles que não leem as letras pequenas. 

O cansaço é generalizado e muito difícil de evitar. Por um lado, sabemos que a luta é justa, mas por outro vemos o tempo passar e o anseio da volta a normalidade, aulas e tudo mais soa muito forte.  A greve nunca foi uma unanimidade, porém era consenso de muitos que ela era necessária.  Entretanto, a cada semana que ela se estende, mais difícil é mantê-la.  Mesmo a mais forte das convicções acaba enfraquecida ao esperar tanto daqueles que parecem não se importar com o que esperamos.

Independente de quando a greve acabar, houve conquistas... Não falo dos parcos “ganhos” oferecidos pelo Governo. A primeira greve da UFABC trouxe um aprendizado em ser mais consciente das entrelinhas das conversas governamentais e mesmo discursos aclamados de colegas.... Talvez, não tenhamos sido ouvidos como gostaríamos, mas aprendemos a ouvir e ver bem além do que o mero acreditar em boas intenções e promessas. Aprendemos a nos colocar em posição firme para exigir o que queremos, aprendemos a nos organizar e discutir o que for preciso... Alguns mais, outros menos, mas todos aprendemos alguma coisa de algum modo com esta greve. 

Também sabemos que a greve traz seu ônus, que nos será devidamente cobrado e não iremos nos recusar a pagá-lo, isso faz parte do processo.  Enquanto escrevo este post, começa mais uma assembléia dos professores em nosso emblemático piso vermelho. Provavelmente, teremos muitos professores avidos em colocar em evidência suas opiniões. Talvez, uma assembléia tão cheia quanto aquela na qual a greve foi deflagrada.  Contudo, agora as mãos estarão mais divididas, algo que também faz parte desse processo. Não sei qual será o resultado no fim dessa manhã, se nós iremos aceitar o fatídico dia 31 de Agosto ou a greve prosseguirá um pouco mais (quanto mais, quem poderá saber? Pergunta que não se cala...).  Entretanto, não tenho dúvida que nesta greve foi “combatido o bom combate” e o vitorioso nem sempre é aquele que subjuga o inimigo,  mas quem termina com o rosto erguido e orgulhoso de seus atos.

****  - EDITADO -  ****

Terminada a assembléia, a votação foi de 80 docentes a favor da continuidade da greve, 61 docentes contra  e 6 abstenções... Desse modo, prevalece a UFABC em greve, pelo menos, até a próxima assembléia que será dia 6/9.  Assim, empurramos um pouco mais o retorno a normalidade... E a faixa UFABC em GREVE permanece no bloco B. Contudo, a cada semana menor é a parcela daqueles que apoiam essa decisão.  Os quase 500 professores da UFABC permanecem ainda parados, devido a uma decisão democrática com uma diferença de 19 votos. Como sempre, as decisões são tomadas por aqueles que comparecem e se importam... O que será que os quase 350 professores restantes acham de tudo isso?